sábado, 30 de outubro de 2010

E tudo era pó.
Lascas e restos carcomidos
De uma matéria gasta e ainda 
Incandescente...
Poeira e cinzas de um vôo rasante 
De uma ave que gorjeia,
Cintila flamejante
Respira Liberdade.
Deixo-vos meu legado, suspiros de inspiração, lágrimas dos sorrisos, risadas dos anseios.
Deixo-vos meu legado de palavras, de sentidos, de ambiguidades, de incertezas.
Legado de derrotas vitoriosas e de vitórias vergonhosas.
Histórias de idas e vindas, chegadas e partidas. Estação após estação.
Apenas uma marca a mais, palavras a mais.
A inspiração já não me cai tão frequentemente.
Falta-me a inquietação e a indagação.
Por ora, deixo-vos apenas um legado a mais.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Árvore

       Os galhos daquela árvore, tão frondosa árvore, tão robusta Sequóia que firmava-se no meio da pradaria, esmigalharam-se e caíram feito cacos de um vitral no chão seco e frio. Aquele tronco imponente que ratificava a glória de séculos e séculos estruturados na lei da madeira nobre partiu-se em delicadas farpas de fibra morta, enchendo o solo de passado, alimentando as gerações que viriam após seu repentino desaparecimento.
       As gotas da garoa umedecem o adubo gerado pela morta matéria viva. Aquele ser que esbanjava vida, que pulsava numa harmonia aumentada, interrompida por diminutas cadências que modulavam suas fascinantes fases, agora alimenta os embriões de novos prólogos que brotarão a partir de sua morte.
       Toda a beleza, toda a vida, toda a carcaça embebida num manto divino apodreceu. Está carcomida e os insetos fizeram de seu óbito uma colônia tão viva quanto a Sequóia que ali respirava. Aqueles animais que debaixo de sua sombra buscavam abrigo, que por entre seus galhos encontravam, por mais simplórios que fossem, lares, agora se dispersam no vazio da pradaria nua. Exposta à brancura do leito do luar. Exposta ao queimar do Astro Rei. Pradaria à deriva da garoa que sossega os espíritos inquietos, despertados pela indagação. Afoitos. Aflitos. Aguardando mais um ciclo vicioso no qual vida torna-se adubo de outra vida.
       Era uma vez, uma história como outra qualquer. Uma estrada que bifurca-se pelas suas escolhas, suas renúncias. Personagens fogosos de uma história surreal, banal. Era uma vez recordações, experiências, olhares, jornadas. A jornada acabou.
       Era uma vez, uma história como outra qualquer. Um epílogo desnorteado e inesperado. Toda história tem um fim. Toda história termina e dá início a novas crônicas, novas estradas.
       21 de setembro de 2010, início de mais um prólogo, conclusão de um capítulo atordoado e gasto pelo cansaço.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Algum Dia

          E se algum dia teus olhos se abrissem e começassem a reviver tudo aquilo que já passou?... Como num filme... Como em um livro, em que as palavras voam e tomam formas. Se dispersam, viram sons, transmutam-se em cores, vibrantes cores que machucam as córneas retraídas. Escalas de cinza, num preto e branco que escondem a imperfeição da sépia rodando todas aquelas memórias, aquelas lembranças, aquelas infindáveis recordações que giram num turbilhão. Indo por água abaixo.
          E se algum dia pudesses ouvir as vozes que te faziam ninar... Sentir as frequências daquelas palavras outrora proferidas e que agora estão aprisionadas em algum espaço dentro de algum tempo remoto e esdrúxulo. Indiferente e sem importância, sem relevância. Tão irrelevante que seus fantasmas assombram teus sonhos... Desdobram-se em sorrisos... Caem em lágrimas, suspiram saudosos, ardem nostálgicos, doem de um modo a parecer confortável para tua carne gasta e suja.
          E se ganhasses um dia... Um dia pra poder sentir. Sentir todas aquelas sensações que aguçaram teu tato, desnortearam teu olfato em meio a uma sinfonia de sentidos perplexos e inexoravelmente confusos...Aquelas sensações que mudaram teu paladar, adocicando teus anseios, azedando teus sorrisos...
          E se algum dia pudesses agradecer, perdoar a ti mesmo, pedir mais um dia? Mais um dia pra que vejas o que teus olhos não puderam enxergar... Pra que sintas o que teus sentidos não puderam distinguir... Pra que possas ouvir aquelas palavras que não te foram ditas, ou até mesmo pra que digas aquilo que deverias ter dito. E se algum dia a ampulheta parasse e as areias não mais escoassem? Seria teu fim. Não haveria motivos mais. Histórias a mais. Se pudesses dominar todo o tempo...o perderia e este não te mataria. Cometerias suicídio.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010


Sinto saudade daqueles dias nos quais podia olhar pro céu e suspirar à deriva de uma brisa incerta que abre os portões de um vazio no peito.
Sinto saudade de saber quem eu sou.
Saudade de saber que não sei aonde vou.
Me vem um aperto em ter a vaga noção de que minhas cinzas vão se dispersando num infinito desordenado e profundo. Vem o aperto de querer não sentir saudade. De querer perder os sentidos e sentimentos, só pra não misturar as saudosas lembranças com nostálgicas memórias. Pra não chorar mais. Pra não rir mais. Pra não fantasiar mais.
As verdades caem em tentação e os olhos disfarçam os calafrios que sente depois de roubarem sua identidade.
Sinto saudade de saber quem sou. Saudade de te procurar. Saudade de te amar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Aonde vai aquele menino
que vaga à beira do mar?
Onde está seu coração
que segue as pegadas sinuosas
de um andar ébrio apagado pelas ondas?
Pra onde vão seus olhares
que se perdem no horizonte incerto?
...e sua respiração é ofegante
seu coração palpita e salta-lhe garganta afora.
Seus pais talvez estejam além do mar,
além do limite de suas delicadas pupilas.
Talvez haja motivos, talvez não.
Talvez seus pés o levem à felicidade,
ou a felicidade está na água
que escorre de seus olhos
enquanto trota sem ver o chão.
Talvez seus soluços vitalizem 
seu coração morto pelos sorrisos perdidos,
pela nostálgica dor
de não saber se é saudade
...ou piedade.
Morto por seus heróis que estão lá fora
à deriva, esperando um sopro de inspiração.
Talvez já esteja morto...
correndo para os braços de Netuno
sorrindo para os raios de Apolo
abraçando o colo de Hades
aconchegando-se no ventre materno
daquela praia na qual se perdeu...
Naquela praia que também está à deriva...
Surreal.
Essencial.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ah... Tenho esperanças...
Tenho esperanças de perdê-las! Perdê-las só pra não cair em um mar de ilusões e me afogar nas águas da boa vontade de uma verdade mentirosa. Não quero perder as ilusões, posso encontrá-las mais cedo ou mais tarde. Quero matá-las, colocá-las frente a frente a um espelho quebrado, só pra poder vê-las se distorcerem, assim como elas fazem com minhas esperanças e momentos de contentamento vicioso.
Ah... Tenho esperanças...
Esperanças de que a verdade seja uma mentira e de que as mentiras mais adocicadas sejam uma realidade concreta, não um bastão fincado na areia de marés, esperando para ser tragado e despedaçado no mar das ilusões.
Ah... como a paciência me apressa... me ateia fogo e apaga meus anseios... Como a pressa me dá paciência... me ensina que os cacos de minha existência não podem ser recuperados. Estão estilhaçados. Prontos para serem fundidos na vidraça de meus ossos. Prontos para serem quebrados e levados ao mar, às areias...
Tenho esperanças... esperanças de não tê-las e, se as tiver, poderei dá-las a mais um caçador de recompensas que vaga no vago. Morto

terça-feira, 20 de julho de 2010

Oh Donzela,
Não me deixe sem teu olhar
Não deixe meu peito sufocar...
Devolve meu coração roubado
Ele não faz parte de um vil tratado.
Oh Donzela,
Não consegue ver além do céu?
Não há nada além de nós,
Do vôo rasante de um albatroz
Que rasga o mar como que um véu.
Oh  Donzela,
Teus olhos podem matar cavaleiros
Tua voz pode derrubar os feiticeiros.
Mas teu gênio não me leva embora
Ele me traga e te devora. 
Oh Donzela,
Descobre quem tu és
Desbrava minha mente
Tão inocente, delinquente...
Vai-te logo com as marés!
...
Só peço que libertes meu olhar,
Deixa meu corpo respirar,
Tira-me dessa paixão
Meu amor não merece teu coração.
Oh Donzela,
Tu és a razão de meu viver,
És o motivo que tira minha vida.
Tu não tens nenhuma razão pra me ter,
Apenas os abraços de uma seca despedida.
...
Oh Donzela,
Como és bela,
Deixo contigo minha inspiração
E levo comigo tua recordação...
Daquilo que nunca existiu...
Da Donzela que nunca se viu.



Talvez seja algum tipo de orgulho, alguma raíz do remorso. Não escrevo mais belas palavras, harmonias agradáveis. Os traços não são suaves, são grosseiros. Meus vocábulos estão densamente dispostos, viciados na dor e na complexidade da arte de se estar vivo. O artista faz da dor uma obra-prima, do orgulho uma verdade, do remorso, um alívio. Não escrevo mais belas palavras? Ora, pra que harmonias divinas se tudo se perdeu em abismos obscuros? Digo que motivos não me são dados, mas uma inspiração me é ofertada e, sendo assim, desafio meu próprio EU a desmembrar o outro lado das graves palavras que tenho marcado. Lá vai:

Talvez seja o orgulho,
Raíz do remorso...
Meus traços graves,
Olhares grosseiros
Palavras densas e vício no complexo...
Talvez seja você,
Raíz de meus sentimentos...
Meus traços suaves,
Meus olhares apaixonados...
Suas palavras brandas
Seu senso para a insensatez.
Insensatez que me devora, 
Me leva além do firmamento
Acima da aurora
Junto das estrelas,
Eternizando cada momento.
Talvez seja você,
Minha razão de estar aqui
De estar aí,
Procurando seus olhos
Nessas palavras que a dedico
Sem mais enrolações.
Eu te amo...
Mas...meu amor te odeia!

domingo, 18 de julho de 2010

Se...

Se a vida fosse feita de certezas...
Se as certezas fossem feitas de condições...
Se as condições nos fossem impostas
A partir do medo que temos
De vivermos por viver
De morrermos pra viver.
Se as afirmativas não fossem adversas...
Se as negativas não fossem tão conclusivas...
Se as conclusões não fossem tão incertas,
Imprecisas, imparciais e duvidosas.
Se a vida fosse construída de certezas,
Que graça teria estar certo?
Se a vida não fosse feita de dúvidas,
Qual o propósito da estada em Terra e não indagação?
Se a vida fosse afirmativa,
Não haveria negações que pudessem evoluir
A solidão de se estar em conjunto,
O autruísmo de se estar só.
Se as condições nos fossem impostas...
Se as imposições soassem como dúvida,
Não começaria tudo com um SE.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vazio...
Há um vazio no convés
E o marujo observa cada onda...
Ouve cada respirar do oceano
Sente cada brisa
Que congela a estibordo
E se perde a bombordo...
Vai-se embora com o coração mutilado
Que deixou a vida em terra
E para o mar se foi,
De encontro a sua sina,
De encontro ao horizonte.

Vazio...
Vazio no convés.
Um nada que grita,
Um silêncio que canta.
Um vazio
No coração daquele marujo.
Um nada que segue pra um lugar
Onde o mar não traz de volta...

Um último olhar para as ondas
Arrebentando no casco.
...Vazio no convés.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Afirmando...

Pois bem...
Sim, sou um órfão qualquer jogado em mais uma soleira. Costumo ser conhecido como aquele cujas palavras negam o sentido da vida
só pra afirmar o senso crítico da consciência, mas, dessa vez, posso ser aquele que afirma e ratifica o sentido das palavras...
Sim, sou um órfão de pensamentos. Largado em qualquer lugar, buscando refúgio na palavra, abrigo na paternidade da inocência
e conforto em algum olhar que, mesmo cabisbaixo, seja sincero e amigo.
Afirmo dessa vez, só pra não negar a chama que a inspiração me trouxe. Digo sim a todas as ideias e ideais. Concordo que minhas negações
podem afirmar, mas minhas certezas podem negar o inevitável, me deixando completamente insensível para com a arte de viver.
Deixo bem claro, leitor(a), que não siga meus exemplos do modo com que faço parecer. Dói. Apenas olhe meus passos e siga as pegadas paralelamente,
fazendo suas próprias marcas na areia fofa. Pisar sobre minhas marcas na areia podem fazê-lo cair, já que tracei meu caminho de modo tão bem pensado,
tão bem feito, que chega a ser doloroso e solitário andar por ele. Andar sobre as pedras pode parecer e realmente ser mais seguro, porém as pedras rasgam a sola dos pés e te ensinam do modo mais seco e firme.
Sim, deixei de negar. Ao invés disso afirmei e, além de afirmar, transformei períodos que poderiam ser objetivos em períodos tão adversativos que me perco nas ideias e no foco do bom senso.
Faço então das palavras que seguem um último conselho: "andar sobre as pedras é mais seguro. andar sobre as areias é mais prazeroso. seguir passos tem mais a ver com traçar caminhos do que segui-los. ande sobre as areias e apoie-se nas pedras sobre as quais pisei." A vida é linda por fora e insana por dentro, portanto trate-a com temor e lembre-se: a única saída pode ser a porta da frente, aquela que todos o viram entrar.

"dedicado a alguém que tem uma raíz em comum...não sei de onde, mas há"

sábado, 10 de julho de 2010

"Senhor do Tempo,
Mestre das Areias,
Pai da Sabedoria...
Volta agora o viajante.
Retorna do lugar
Onde nunca quis estar,
Onde nunca reconheceu um olhar.
Retorna à sua morada,
Terra de incertezas,
Medos...escuridão...."

Os medos apenas dão a coragem necessária para que a escuridão seja vista a partir de um clarão letal. Letal para os olhos. Constrói as trevas a partir da luz e faz com que abraços sejam sentidos como camisas de força. Medos apenas nos dão liberdade. Controvérsio, não? Eles edificam a liberdade... sentimento de não sentir-se preso a si, ao ego. Dão uma liberdade que nos permite saborear o mundo lá fora, criam uma expressão que nos proporciona total curiosidade de se conhecer o desconhecido. Da liberdade vem a prisão. A escuridão do medo nos aprisiona e ratifica a incapacidade de sermos o que somos. Aprisiona sonhos, sufoca o viver...
Medos talvez sejam a coragem necessária para ganharmos liberdade ou cárcere...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Talvez não seja hoje o melhor dia de sua vida. Talvez não seja hoje o pior dia de todos. Talvez seja apenas mais um dentre vários outros. Sem gosto algum.
Sem sabor de vitória, sem odor de derrotas. Não há nada mais complexo do que a satisfação do gênio humano. Ora, o Sol ilumina, aquece os corações bem-aventurados, traz consigo um brilho de esperança. Mas o Sol queima, abafa, mata. Já a chuva refresca. Acaricia a face, toca os corações apaixonados e, sem dúvida alguma, nos nina com sua doce cantiga noturna e firmemente ritmada. Mas, infelizmente, a chuva molha, alaga, devasta.
Não há nada mais complexo do que a satisfação do gênio humano. As palavras podem confortar, mas palavras podem incomodar. O silêncio pode nos dar respiração, mas o silêncio nos cala, isola e mata por dentro.
Não tento satisfazer mais o gênio humano, ele me satisfaz. Não tento mais compreender esse gênio orgulhoso e cruel, ele me compreende, me fascina e vem até mim. Discute cara a cara com o ceticismo, com o mistério de um ser e não ser.
Talvez hoje seja apenas mais um dia dentre vários outros, talvez não haja vários outros. A satisfação pode confortar. A satisfação pode consumir, deteriorar. A simplicidade não é simples e satisfatória, é apenas o essencial.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Minha condição é humana, logo, Caro Leitor, não tenho condições.
Não tenho condições de escrever nada além do óbvio e do efêmero. O efêmero que choca e causa danos na consciência, não sei por quê. Minha condição é humana e, por tal motivo, ganho esperanças de perder as esperanças. Ganho esperanças de não tê-las para não ferir meus olhos futuramente, para não decepcionar minhas falsas crenças e os dogmas que eu mesmo edifico sem um porquê.
Ganho consciência para perdê-la. Perder a consciência dói menos do que saber que esta o leva à insanidade. Paradoxalmente humano.
Ora, somos montados de paradoxos, não de amontoados de antíteses... jogadas em uma porção de sujeira ambulante. Não somos indivíduos, somos um todo. Não somos um todo, somos indivíduos. Paradoxalmente HUMANOS.
Sou nada a mais,
nada a menos.
Quanto mais sou
menos me torno
Quanto menos sou
mais quero ser.
Seu olhar não é seu
foi feito por alguém
Lá fora, aí dentro.

As palavras vêm e vão,
mas marcas vêm e ficam.

Sou nada a mais,
nada a menos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

E o orvalho pesou. Sua delicada transparência dispersou-se em lâminas desorganizadas no solo. A última gota caiu. Secou o ar, umedeceu a areia seca. Caiu dos olhos, salgou a fonte...
Caro leitor, as cinzas e a poeira apenas ratificam a sensibilidade da matéria nossa própria FALTA.
Falta de sensibilidade, falta da capacidade de discernimento e falta de qualquer VONTADE.

E o orvalho pesou...
A última gota escoou.
Desceu pelo pálido semblante
Molhou o solo seco.

E o orvalho pesou...
Explodiu na fronte
Daquele que olhava o firmamento,
Regou a mente de vazio.

E o orvalho pesou...
Secou...
Cinzas se tornou.
O orvalho transbordou.

domingo, 20 de junho de 2010

Vozes


Ah...
As bocas se calaram,
Mas as vozes...
As vozes ainda são ouvidas.

O peito gelou.
A pele nevou.
E o semblante agravou-se.
Ah...
E as vozes...
As vozes não cessam.
Simplesmente, algozes,
Te dispersam.

...Vozes.
Te dispersam.

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Confiança é um nó cego. Confiança é um laço sensível que pode desatar-se num piscar de olhos. Todos aqueles olhos que afagam-lhe o ego podem apunhalar seu peito, fuzilar a alma e deteriorar a essência.
É um nó cego que enxerga os espaços vazios e ata um desconcerto tão particular e vicioso quanto sua volubilidade à curiosidade do alheio.
Caro leitor, sei que não deveria, mas o farei. Sei que, muitas vezes não é de bom tom ou muito conveniente, mas um desabafo às vezes pode tornar-se a arte do RESPIRAR.
Certamente nada tem a ver com minha vida, só que, por hora gostaria de dizer-lhe o quão bom é ser ingênuo! Não pense que sou... grande desventura minha. O peito dos seres inocentes é de fácil manipulação e tem movimentos harmônicos, dançantes, invejáveis. Invejáveis para aqueles que puxam os nós cegos e "rapinam" a sabedoria (ou ao menos tentam).
Apenas um desabafo. Odeio ter que dizer que tenho desatado nós cegos. Um piscar de olhos e me vejo descalço na brasa. Caminhando até o outro lado pra tentar atar algum laço que me restou.
Grato,
Leo Rodrigues

terça-feira, 15 de junho de 2010


E Tudo se acabou...
Tudo virou cinzas
E Tudo virou Nada.

Nada tornou-se novo,
Nada tornou-se bom,
Nada agora é Tudo
E Tudo agora é Nada.

Sal é mar, água seca...
Que dá sede de mais
Dá ânsia de se ter Tudo,
Ou de se ter Nada.

E Tudo (re)começou...
Começou a terminar,
Só pra não se dizer
Que Tudo é Nada.
E então voltar
A virar pó

Tornar-se matéria

Virar pó

Tor nar - se
Ma Té Ria

Vi r a
r p ó

. . .

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Fábrica de dias.


Em algum lugar, muito distante de nossa pobre trivialidade, há uma fábrica de dias.
Dias longínquos, tempos remotos. Dias negros. Dias de sonho. Dias de lágrima. Areias que escoarão como qualquer outra, tornando-se parte das dunas de um oásis perdido em meio a um deserto de dias secos e tão banais quanto um "bom dia" pela manhã.
Dias são dias. São fabricados todos com o mesmo ouro de sempre. Banhados a sangue. Afogados no passado. Respirando futuro.
Há uma fábrica de dias lá fora. Um lugar onde o tempo é estático. Um lugar onde os exilados do Dom Divino mantêm-se sempre satisfeitos. Todos movidos pelo narcisismo caótico que brama alto dias afora.
Em um lugar, muitíssimo distante, dentro de mim, há uma fábrica de dias. Dias que temo. Dias que amo. Há uma fábrica de beijos, soluços, anseios, vitórias e derrotas.
Aguardo sabiamente o dia que está por vir. A obra prima da Criação. Espero por aquele dia que possa parecer como qualquer outro, mas que me leve de volta à fábrica de onde vim.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Receita


Pois bem. Se me pedissem para escrever algo neste exato momento, diria que não. Negaria impiedosamente até que o cansaço saísse vitorioso e que pudesse haver comigo mesmo. Em paz. Mas, em verdade, não é muito bem isso que ocorre nesse tonel farto de ideias frescas que está sobre meu pescoço. NECESSITO esvaziá-lo. Abrir as torneiras só pra ver o que sai. Ver se a vinha era da boa, se o aroma corresponde ao fruto, se há sabor no que se consome.
Devo confessar-lhe, leitor, que por mais esdrúxulas que sejam minhas palavras, por mais cruas, secas e rubras, são minhas palavras. Particularmente minhas. Degusto-as letra por letra, frase por frase, de ponto a ponto.
Devo falar-lhe, leitor, que não me apetecem pratos refinados e ornamentados, com nomes estrangeiros e sabores extra-continentais. Não me agradam os gostos que agradam um apreciador de requintes e mordomias exclusivas. Apenas me satisfazem os odores de uma sustância rica, nutritiva e, paradoxalmente, detestada por aqueles que digerem o banal. O que não deveria ser exótico, mas o é.
Digo então que vou-me deitar depois de apreciar um bom prato de sopa de letras. Tão confusas e misturadas que mal posso ver o líquido fluir entre elas. Vou-me tarde, por em ordem as ideias que foram engolidas.

domingo, 6 de junho de 2010

Saia!


Ei, olhe bem nos meus olhos...
E diga que a vida não é o bastante.
Diga que o mundo tem sete bilhões de vidas...
Não há sete bilhões, mas beiramos este precipício.

Saia... diga que você está no meio delas
E nem mesmo sabe o porquê...
Eles não o conhecem,
Você não os conhece...

Diga, então, que tem um sonho...
Só pra descobrir que sonhos não são feitos,
São conquistados e lapidados
Sem que tenhamos a chance de ao menos nos enfrentarmos.

Saia... diga que está no meio dessas vidas.
Não tente conhecê-las.
Não tente conquistá-las, cativá-las...
Antes de conhecer a si mesmo,
Saber qual sua identidade.

Ei, olhe bem nos meus olhos...
E diga que a vida não é o bastante.
Diga que não faz parte da beira desse precipício...
...Diga que isso é o bastante...
Não sei o que isso é. Mas é

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sei, não.


Há tempos não sei o que é sonhar. Não sei mais o que são pesadelos, quais os verdadeiros significados de palavras simples. Vocábulos extremamente complexos e bem elaborados em um período tão confuso como o labirinto cinzento dentro de meu universo mental ocupam demais as lacunas e derrubam meu senso crítico e emocional.
Cansei de começar minhas frases com negações, mas, afinal, nega-se a própria vontade de negar e afirma-se o vício da dor de não ser o que se deve ser: um rinoceronte em corda-bamba, esperando o momento exato. O momento que será apontado louco, suicida.
Há tempos não sei o que significa escrever uma carta de amor, um bilhete de amigo, uma ventura da vida. Há tempos não sei o que é apoiar-se em um ombro. Sou muleta de criaturas pobres. Por isso mesmo, continuo iniciando meus períodos em negações... talvez elas afirmem o que parece fugir dos olhos fadados a serem cegos. Talvez minhas negações afirmem. Talvez não. Não sei.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O novelo


Era um simples novelo de lã, mas mesmo assim fixava seus úmidos olhos naquele emaranhado de fios que não faziam sentido algum, que roubavam seu senso crítico.
A luz do fogo da lareira brincava com as sombras e aquecia seu semblante deformado. Tudo estava concentrado bem ali, naquela bolinha trançada. Imaginava que poderia ser como ela: estático, homogêneo, emaranhado, confuso, inanimado... formado da carcaça de outro animal que como qualquer outro, apenas passou sobre a Terra.
Olhava o estalar das chamas e as labaredas subindo e bailando de modo tão abstrato... tão atraente. Voltava então, sua atenção para o novelo de lã em suas mãos, tão sem graça, pobre e confuso... tão humano. Observava uma vida em suas mãos. Uma vida em chamas. Devaneava com suas sombras... lançava os pedacinhos daquela pequena e insana vida às chamas... Devaneava... as ideias refletiam...
Gritos! e o novelo de lã cai pelas escadas abaixo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Velas


E lá fora posta uma vela acesa a sua frente. Os gigantes, como em um ritual periódico, urravam e cantavam palavras que não lhe faziam sentido algum. Não pedira para ser colocado nesse mundo, só pra depois ser culpado de sua existência, pra ser culpado de apagar velas, queimar a parafina que consome a vida.
As luzes se apagam e a vela queima. Refletem em sua íris o calor e o peso que carregará em seus ombros. Sem velas a mais, são simplesmente velas a menos.
E lá fora posta uma vela acesa a sua frente. A chama sendo apagada. Apaga-se o tempo. Uma vela a sua frente... a primeira de suas vinte e uma velas que esmaeceram as luzes da sala.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Caro leitor,


Prefácios carinhosos e epílogos agradáveis não constam muito em minhas ideias e inspirações. Os fatos, as metáforas, os paradoxos e sua própria alienação são os mais intrigantes e essenciais artifícios para que consiga interpretar minhas palavras. Ao menos tentar compreendê-las, já que veracidade pode ser confundida com voracidade e ainda as chamo de compaixão. Compaixão de eufemizar sua existência que pode não ser tão bela quanto meus devaneios nos quais adoro usar vocábulos como "putrefação, "estupidez", "humanidade", "promiscuidade" e assim vai... Sim, ao usar essas palavras eufemizo o "Fator Humanidade" que habita seu caráter. Heróis não têm super-poderes. Os seus heróis podem estar mortos ou, se não, ainda não os achou. Posso ser o herói para muitos. Para muitos mais posso ser o marginal da filosofia social e cultural que apodrece sua mente e seus ideais. Pois bem, aí vi uma dica: não interprete as palavras que escrevo como querem que as compreendam. Faça delas o que melhor lhe convir. Ou nem faça. Desista como eu.

De seu,
Leo Rodrigues

Saiba que...


Teus olhos me encantam...
E teu olhar me mata.

Tua voz me aconchega...
E tuas palavras me cortam.

Amo teus abraços...
Odeio teus motivos.

Tua serenidade me domina...
E teu gênio me sufoca.

Amo tua meiguice...
Odeio teus mistérios.

Eu te amo,
Mas meu amor te odeia.

Era uma vez...


Era uma vez... duas vezes... quantas vezes você quiser. Frio. Névoa. Aurora. Reflexos. Vozes. Olhos. Vozes. Cumprimentos. Água. Vapor. Alimento. Vozes. Trajes. Soluços. Frio. Névoa. Pernas. Chão. Névoa. Vozes. Olhos. Vozes. Nada além de olhos e vozes.

Era uma vez... duas vezes... quantas vezes forem necessárias. Frio. Névoa. Reflexos. Pó. Crepúsculo. Olhos. Estrelas e vozes. Vozes e estrelas. Nuvens e orvalho. O frio aconchegado em amplexos. O desejo morto em ósculos. Reflexos. Olhos. Vozes... tudo aquilo rodeando. Cambaleando. Embriaguez. Frio quente. Calor gélido.

Era uma vez... duas vezes... talvez mais nenhuma vez. Curto no sistema. Circuito fundido. Palpitações sem inspirações. Era uma...vez. duas trajes. olhos. sensatez. frio. soluços. curto. chão. nuvens. circuito quebrado. frio.

vozes...
vozes...e olhares

terça-feira, 25 de maio de 2010

Se quiser...


arranque meus olhos. Não me permita ver minha própria raça cometendo suicídio.
Se quiser, pode abrir meu peito e despedaçar o resto do coração. Apenas o resto, porque o todo já se foi com a esperança que, em verdade, foi uma das primeiras a morrer.
Se ainda quiser, permito que me arranque o escalpo. Só pra ver aquela massa cinzenta derretendo, borbulhando, apodrecendo... de tanta informação, (de)formação, de tanta futilidade.
Se quiser, emudece-me. Não me deixe gritar feito covarde, não me permita proliferar o realismo pelo mundo, espalhar a desgraça da humanidade, a cortante realidade de se ver no reflexo de um espelho.
Pode me torturar, torcer meus membros e tirar-me a audição. Deixe-me em paz com as melodias que posso recordar, com as harmonias que me confortam, só privando-me de escutar os murmúrios da estupidez, os bramidos da ignorância que me julgam culpado, que condenam os ideais livres e privam os desejos mais banais da mente (des)humana.
Se quiser, suma com todas as minhas vestimentas, jogue-me no Atlântico Norte em um dia pálido de dezembro pra depois atirar-me na goela do Vesúvio.
Exploda meus órgãos, deturpe meu semblante, quebre meus ossos, desgaste minhas veias e aperte minhas artérias. Não deixe o ar passar. Sufoque meus pulmões. Congele meu corpo. Liberte minha alma.
Se quiser, pode até converter-me em pó, cremando essa marionete vulgar e orgânica.
Pode privar-me de tudo, mas nunca permitirei que o caráter caia nas falésias do homem, não deixarei que o bom senso seja corrompido, muito menos que eu deixe de ser eu mesmo. Mesmo sabendo que sou poeira, não me deixe fazer parte do deserto, de belas dunas. Faça-me ir pra onde o vento me levar, talvez pra algum lugar melhor que esse. Talvez pra lugar algum. Livre daqui.

Vim de um lugar distante...
Realmente longe daqui.
Do outro lado da consciência
Do outro lado da tua moralidade
Lado oposto de teus princípios
Vim te atormentar.

Vim de um lugar distante
Onde a humanidade ainda era humana
Onde o sol podia nascer ou se por
Sem que tivesse medo dos minutos
Que vêm da escuridão,
De um futuro fúnebre.

Vim de tempos remotos
Quando luz era luz
Escuridão era a sombra
E à noite havia estrelas.
Vim parar em tempos incertos,
Remorsos...
Vim por vir, pra ver-te aqui,
Pra ver-me sofrer...
Só pra não perder-me no esquecimento
E olhar nos teus olhos,
Saber que não és minha
E partir novamente
Para o lugar de onde vim.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Será?


Será que estou louco? A negação é a prova da minha insanidade moral? Ou esse mundo ao meu redor que apodrece as raízes as quais me sustentam?
Pois bem, a superestima ou a subestima alheia podem causar-te certa confusão, meu caro leitor. Tens medo de olhar as bestas lá fora sem teu elmo, cavaleiro? A luz é tanta que cega-te e escurece tuas expectativas.
Os tostões são sábios e divididos em cara e coroa. Dois lados estrategicamente distintos e independentes.
A cara subestima tuas imparcialidades e busca em algum lugar o que não deve ser encontrado: a voracidade dos fatos. Tens que encontrar o erro no divino e cais em tentação de não curvar-te ao desconhecido e abraçá-lo com a mesma compaixão que tens para com teus irmãos.
A coroa superestima tuas imparcialidades e tenta transformar o joio em ambrosia. Pões fé no abismo, mesmo sabendo que este traga-te como verme em terra. Pões fé e queima-te no fogo por algo que não lhe dá valor. Decepciona-te.
Joga a moeda para o alto. Discerne o que é cara, o que é coroa e o que não deve estar na moeda. Descobre teus valores, aqueles que estão aprisionados dentro de um amontoado de vazio e coragem. Encontra os valores de quem caminha contigo e lança os tostões ao mar. Eles não valem a pena, eles têm duas caras e... podem consumir tua inocência.
Meu caro leitor, sabes quem és
beijo grande!

E lá se vai...


O andarilho da vida.
Sem um rumo, sem direções...
Imparcial de seus sonhos,
Todos carcomidos pela miséria
Do tempo que corrói as almas.

Ímpar de seu desejos
Que morreram todos
Com seus heróis baixos
E corrompidos.

Viciado no ópio da dor
No ópio do olhar,
No calor glacial

Lá se vai o andarilho
Como um cadáver...
Como um marionete vivo
Matéria estúpida,
Incerta.

Lá se vai o andarilho,
Pra nunca mais voltar

sábado, 22 de maio de 2010

Caminho...


por terras incertas
mares em fúria
lugares inóspitos.

Desbravo olhares
traduzo sorrisos
e seco as lágrimas...
só pra poder derramá-las
de novo
em algum lugar.

Escondo a dor
grito em silêncio...
espero que não me encontrem.
Desejo que todos os alicerces
se curvem ao realismo dos fatos
e desmoronem esse mundo
de caminhos errados.

Paciência...


Paciência. Paciência é um dom que merece certa admiração nos dias de hoje. É uma virtude a qual poucos se preocupam em explorar e se aprofundar. Não sei se sou tão dotado assim, se essa virtude faz parte de meus princípios. Creio que sim. Creio que tornou-se tão banal e sincera que realmente não sei se sou suficientemente paciente comigo mesmo.

Isso não vem ao caso. Apenas acho um bom começo. Uma introdução digna de paciência, digna de uma filosofia barata que umedece os olhares dos que se satisfazem em ouvir o que querem para mascarar aquilo que realmente são. Não tenho paciência, mas a recomendo a todos. Se não for um portador desse tesouro, acabará como eu, procurando palavras para introduzir mais palavras que podem não fazer sentido algum, mas ao mesmo tempo podem dizer tanto quanto uma enciclopédia. Uma onda de palavras que traduzem um sentimento em comum, todas elas quebrando sobre sua cabeça e... lhe tirando toda a PACIÊNCIA.

Pois bem, se chegou até aqui é um bom sinal. Realmente tem curiosidade de saber o que tenho a dizer. Quer tentar entender o labirinto que é a mente alheia, mas não consegue. Quer tentar resgatar algum prestígio de um passado pobre e cru, tão seco que Eufrates não resgata. Talvez não seja nem a ânsia do resgate daquilo que nunca existiu, talvez seja a busca de ser aquilo que nunca se foi, ou mesmo daquilo que não se pode ser. Não, não acho que seja tão podre a ponto de fazer isso. Pode ser que seja apenas a curiosidade de saber como funciona o pulsar da vida e de saber como é viver fora dos pólos, lugar onde as constelações estão ébrias e cambaleiam sem nascer ou se por no horizonte, rodam em torno do ser egocêntrico que é. Um ser polar por natureza, frio e imundo, mas descarada e falsamente quente e limpo.

Duvido que haja algum tipo de horizonte além do abismo. Não sei se o amanhã ainda existe, afinal, ele é futuro, ao mesmo tempo que torna-se presente e cai no esquecimento como passado inglorioso e vulgar. Só sei que minha maior certeza é a incerteza de estar certo. Que sou consumido pelo ceticismo enquanto me afogo no misticismo o qual me condena.

Palavras seguidas de mais palavras. Todas jogadas ao léu. Podem até fazer algum sentido para aqueles que compartilham a dor da dúvida existencial. Podem não fazer sentido nenhum para o leitor polar. Podem traduzir olhares, podem disfarçar feridas, podem abrir chagas, podem desabafar uma lágrima. Mas no fim de tudo, todas dizem a mesma coisa. Todas são redundantes e repetitivas. Nada além da realidade. Realidade que poucos vêem, diferença crucial e essencial. Realidade que poucos conseguem expressar, curar, cicatrizar. As cicatrizes da contradição são permanentes e profundas e lançam-no nas profundas águas da própria hipocrisia. Busca-se amor demais e vive-se no ódio, na escravidão. Transforma-se o amor nos elos de uma corrente egoísta que não aceita perdas, particularidades e liberdade. Transforma-se o amor em carma, em vício, em ódio de amar.

Paciência. Paciência talvez seja um dom. Talvez tenha sido designada àqueles que não tenham paciência para tê-la. O tempo não voa, ele esmaece e quebra os espelhos nos quais sua imagem é refletida. O tempo dá experiência, mas arranca a vitalidade. Ele oferta sua sabedoria só pra nos emburrecer no fim de nossa trágica comédia. O tempo faz nascer e mata. Não lhe dá mais um dia de vida, ele tira mais um dia do espetáculo construído pelo suor, pelo sangue, pelo sal dos olhos e pelas doces máscaras que nos são dadas antes de se abrirem as cortinas. O tempo não é gentil. Ele dá toda a paciência porque sabe que não a terá por ser paciente.

Onde quero chegar? Boa pergunta. Não quero chegar, mas devo chegar. Em algum lugar onde o sol nasce todas as manhãs e se põe todas as noites. Um lugar normal e tão insano quanto eu, tão insano quanto minha raça, que faz da negação da loucura um diagnóstico desta. Um lugar que não haja uma raça supérflua, impotente e, quem sabe, feliz. Não que a felicidade seja o abismo absoluto, é apenas a pá que cava o buraco de sua perdição.

E assim vai a arte, sua arte. Trágica, inocente, codificada e... paciente. Lenta. Letal. Lastimável. Lúgubre. Tão viva e tão morta.

Tão bela e tão deformada...

Tão livre e tão presa.

Poética, persuasiva. Palavras não expressam palavras. Palavras expressam universos, olhares, sorrisos, soluços, sentimentos, sortilégios. Simplórios solfejos de uma singela alma perdida. De uma alma impaciente.

A vida corroi a esperança e cega com sua iluminação. A vida não é feita de inícios, mas de finais que parecem aconchegar algo novo para o futuro. A indagação destroi os alicerces de seus alicerces. A rotina rasga o bom senso e apunhala seus escravos. A vontade de fazer do outro sua imagem e semelhança corrompe a composição do ser amado.

Tudo vem do resto. Tudo vira resto. Somos resto de vida morta e consideramo-nos mais vivos que um cadáver na beira do rio. Somos todos cadáveres ambulantes ligados por impulsos elétricos numa massa estúpida que não reconhece a própria raça e os motivos de funcionar.

Traduzir palavras e mais palavras, seguidas de mais palavras pode parecer complicado. Julgar ideias, entender olhares, sair do próprio labirinto, desmanchar tudo aquilo que nunca foi construído... basta um pouco de paciência.

Conclusões são efeitos baratos de discursos pobres de mentes que ao se verem no espelho apenas enxergam a imagem, não a deformação do tempo a cada momento. Conclusões são ópio. Viciam. Tiram o peso todo de sua promiscuidade que no fim das contas está lá, afundando teu corpo em direção ao solo sujo pelos que rastejam à sua frente. Conclusões concluem, na verdade, ao menos tentam. Elas satisfazem o desejo de não querer sumir.

Um ponto final conclui. Mas só por enquanto.