quinta-feira, 30 de junho de 2011

Capítulo 9 - O Desabafo

       "Posso tentar esconder a verdade dos olhos alheios e deixar mudos os fatos para aqueles que ouvem do lado de fora do meu peito, mas não posso enjaular nenhuma chama que consome meu coração. É impossível viver engasgando com os próprios sentimentos e tentando encontrar o verdadeiro amor no meio das pedrinhas de um mosaico bizantino. Impossível achar o equilíbrio e o perfeito agrado da mente sem sentir a dor da distância do próprio amor.
        Desabafo com o caro Leitor, no caso, Leitora. Admito que sempre fui orgulhoso quanto às minhas virtudes e sentimentos e prometi a mim mesmo que conseguiria controlar cada sorriso meu, cada lágrima, toda a dor, todo o amor. Confesso que nunca me satisfiz com pouco, que nunca me encontrei e que, na verdade, nem sei quem sou e aonde estou indo. Não sei de onde vim e porque aqui estou. Deve haver um motivo maior, alguém maior, algo que, de certa forma, conquistou meu respeito e admiração.
        Sempre fui orgulhoso e meu egoísmo me levou ao altruísmo pleno. Admito, então, que não controlo meus sentimentos, meus sorrisos, minhas lágrimas, meus desejos. Seus olhos dominam minha fala e sua voz congela o tempo e soa como música dentro de mim. O sorriso derruba meus alicerces e pinta uma obra de arte que me deixa sem voz. Não consigo mais me prender a mim e a meus princípios sem pensar em seus pensamentos e creio que me dói mais não poder nem tocá-la ou sentir sua respiração perto de mim.
        Desabafo. Sinto-me leve de deixá-la eternizada, imortal, gravada dentro e fora de mim, mesmo que não saibam quem é. Mesmo que eu não saiba quem sou.
        A verdade está no desabafo, não na própria verdade. A verdade é que ela foi feita para mascarar meus sentimentos e universalizar os fatos. A MINHA verdade é esta aqui, proposta diante de seus olhos, feita pelas minhas lágrimas e sorrisos, dedicados todos a uma só fonte de inspiração que eu nunca esperava encontrar. Tão longe... Tão perto.
        Obrigado por existir."

domingo, 19 de junho de 2011

Capítulo 8 - A Verdade

       "Não tenha medo de se apaixonar. Tentar dominar o coração pode parecer maduro e sensato, mas dominá-lo apenas mata as esperanças e oportunidades que nos são plantadas diante dos olhos.
       Tenha medo de perder a vontade de amar, a vontade de viver. Ao descobrir-se que a felicidade em si não existe e que ela está na busca dela própria, a vontade de extirpar uma vida consome as ideias daquele que não para de pensar e possui a mente inquieta.
       Temer o desconhecido é mais seguro do que enfrentar o incerto e, talvez, letal.
       Não tenha medo de se apaixonar. As punhaladas dadas no coração devem ser sentidas e as feridas abertas para conseguir tirar o que há de melhor lá dentro. A distância impede contatos, tatos... A distância não impede contatos, orgulhos, paixões. Saudade revela a dependência do prazer, da satisfação, da vivência.
       Tentar algo novo não é suicídio, é renovar os ideais, enriquecer as experiências. Tentar algo velho é nostalgia e gosto pelo que realmente valeu a pena e, acima de tudo isso, tentar o novo em algo que já possui longa data, é um privilégio para poucos, uma honra, um aprendizado e, sem dúvidas, a mais satisfatória das sensações.
       Poucos admitem suas paixões, tentam escondê-las de si. É inútil, é inevitável, é covardia. Apaixonar-se revitaliza os olhares e irriga as mentes inóspitas que vagam por aí sem uma direção.
       Não tenha medo, tudo a seu tempo e, as vezes, mais próximo do que se imagina'

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Capítulo 7 - O Desejo

"Faça um pedido. Deseje um momento de solidão. Espere o Silêncio conquistar sua alma e dominar as ideias que pra nada servem.
 Peça para não voltar mais ao lar de mãos vazias e deseje enchê-las de labuta. Labuta mental. Encha suas mãos de pó, de você mesmo e... faça um pedido, pois as moedas da fonte não reluzem mais, não brilham como o cintilar do sonho estagnado nas águas cíclicas e viciosas desse poço de desejos.
  Sentada à beira da fonte, uma doce menininha conta as moedas, refresca suas mãos na superfície gelada e transparente que reflete sua face e distorce seu semblante. Imagina quantos sonhos ali depositados foram deixados para as carpas, quantos desejos oxidaram-se naquelas águas viciosas e tentadoras. Percebe a riqueza deixada pra trás, o tesouro lançado no fundo de um poço imaginário, a preciosidade que nem o baú dos Corsários pode comprar, nem o saque dos piratas pode suportar. Mapeia todas as lágrimas que salgaram o manto límpido, todos os sorrisos refletidos, as esperanças perdidas, os remorsos lançados com a prata.
 Tenta entender o porquê de aquela fonte devolver sonhos em troca do níquel conquistado pela ânsia do material, riqueza ajuntada pelos que não ousam sonhar, por aqueles que já se acomodaram e, simplesmente, lançam sua falta de virtudes com um pedaço daquilo que representa o vazio e efêmero. A vida em troca de uma pequena parcela de misticismo e um bocado do seu bolso.
 À beira da fonte, não ousa tocar em nenhum dos sonhos ali jogados, apenas espera seu momento de insanidade para, então, poder lançar também seus desejos naquela prisão de esperanças.
 Faça um pedido. Aperte suas mãos contra o peito enquanto segura um amuleto que lhe doa perder. Lance-o para as carpas e veja-o afundar com a certeza de que nada o trará de volta. Troque-o pelo Desejo."
 

domingo, 12 de junho de 2011

Capítulo 6 - A Carta

"Duvido que teus olhos sejam sinceros comigo. Perco-me nessas pérolas que foram criadas para torturar e levar meu coração pra longe de mim. Tenho certeza de que não encontrei nenhum amor, nenhum motivo que faça valer a pena a dor e o suor. Certeza de que nenhuma das pérolas que já me encantou foi suficientemente valiosa a ponto de eu me deixar dominar, de eu amordaçar meu peito e rasgar meu passado. Cansei também da primeira pessoa neste discurso!
 Tira-se, então, o sujeito e universaliza-se a ideia. Imortaliza-se a inspiração e toda a vontade de se abrir para o mundo, a vontade de gritar pra ninguém ouvir. Só teus pensamentos e teus amores. Duvido que os olhos sejam sinceros. Eles próprios se enganam e confundem a imagem, distorcem a realidade, romantizam a esdrúxula vontade do carnal e embelezam as lágimas, tentando transformá-las em amparo e motivos de limpeza de suas pupilas.
 Sonha-se tanto e lembra-se pouco. Fica tudo adormecido, à espera de uma punhalada certeira. Sonha-se com tanto, mas vive-se quase nada. As ideias caem e esmaecem. A covardia não as deixa florescer, mata todas elas e dá como troco a nostalgia de não se ter mergulhado nas profundezas da subjetividade.
 Volto à primeira pessoa e trato meus amores com a indiferença merecida. São apenas sombras que iludem meus olhares, enganam meus pensamentos e persuadem meu ser. Não estendo-me mais do que isso. Prefiro este momento de criação e angústia, a um momento efêmero e falso que abre uma cicatriz bem no fundo de mim. Espero poder encontrá-la em breve e ter de volta aquela voz sincera que me faz ninar."