quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Árvore

       Os galhos daquela árvore, tão frondosa árvore, tão robusta Sequóia que firmava-se no meio da pradaria, esmigalharam-se e caíram feito cacos de um vitral no chão seco e frio. Aquele tronco imponente que ratificava a glória de séculos e séculos estruturados na lei da madeira nobre partiu-se em delicadas farpas de fibra morta, enchendo o solo de passado, alimentando as gerações que viriam após seu repentino desaparecimento.
       As gotas da garoa umedecem o adubo gerado pela morta matéria viva. Aquele ser que esbanjava vida, que pulsava numa harmonia aumentada, interrompida por diminutas cadências que modulavam suas fascinantes fases, agora alimenta os embriões de novos prólogos que brotarão a partir de sua morte.
       Toda a beleza, toda a vida, toda a carcaça embebida num manto divino apodreceu. Está carcomida e os insetos fizeram de seu óbito uma colônia tão viva quanto a Sequóia que ali respirava. Aqueles animais que debaixo de sua sombra buscavam abrigo, que por entre seus galhos encontravam, por mais simplórios que fossem, lares, agora se dispersam no vazio da pradaria nua. Exposta à brancura do leito do luar. Exposta ao queimar do Astro Rei. Pradaria à deriva da garoa que sossega os espíritos inquietos, despertados pela indagação. Afoitos. Aflitos. Aguardando mais um ciclo vicioso no qual vida torna-se adubo de outra vida.

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