segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Capítulo 3 - A Pequena Legião

       "Tentar retomar um sonho após um tranco da mente é difícil. Voltar ao seu enredo original, reconstruir os cenários, reviver os momentos, (re)apurar os sentidos, transformar o palpitar frenético de dentro do peito em um andamento moderado, silencioso, sonolento. Adormecido.
       Desenhava seu rosto com a pupila nas pálpebras involuntariamente cerradas. Ao menos tentava. Dar forma à penumbra de meus olhos é tarefa que exige paciência... e sono. Não enxergo mais meu corpo e nem a luz através dele. Voltei às pradarias que insistiam em sediar meus sonhos. Deixo para trás a boca de uma estranha gruta, um lugar que não me agradaria estar.
       A brisa refresca meus pensamentos e reforça seu perfume impregnado no ar do meu Vazio. Quero ouvir sua voz no vento que corta minhas ideias. Encontrar suas mãos perdidas noites antes. Eis que do nada surge um pequeno ser em minha frente. Era um homenzinho muito bem arrumado, de barba ruiva e asseada. Usava um chapéu que, ironicamente, poderia ser comparado a seu tamanho mínimo.
       O homenzinho começa a falar-me. Fala. Repete. Grita. Analisa-me de ponta a ponta. Para. Fica estático, imóvel, sem ação. Olhava fixamente para algum horizonte atrás de mim. Olhava atentamente até o silêncio tomar conta da paisagem. Breu. Apenas eu e o pequeno ser. Encarando um ao outro. Como um deboche ou graça espontânea, o homenzinho começa a gargalhar. Perde o ar de tanto rir, quebra-se o breu e  do Nada uma legião de inacabáveis homenzinhos barbudos surge.
       Um jovem ser vem até mim. Diz-me com forçados gestos para segui-los sem medo. O anãozinho mostra-me uma linda aliança que vestia em sua cintura. Era a aliança que vestia suas mãos que tanto procuro. Certamente havia encontrado a jóia em meio a confusão de meus pensamentos. Quando se tem a mente digressiva demais, sonhos se misturam e é cada vez mais complicado achar alguma resposta plausível para questões quem nem mesmo sua cabeça é capaz de formular. Quando a mente é digressiva demais, esquecemos detalhes, enxergamos o todo e magoamos nossa própria memória. Transformamos saudade em nostalgia. Tentamos sonhar acordados só pra termos a impressão de que controlamos nosso próprio Mistério.
       A "pequena" legião leva-me a uma vila. Casinhas rústicas, mas bem conservadas. Uma praça que não me é estranha toma forma em meu caminho. Um poço como aqueles de contos de fadas encontra-se discreto e solitário no centro da vila. O poço me atrai. Os sons do fundo de um poço lembram meus devaneios e logo debruço-me para encontrar minha identidade que está perdida até então.
       As faces dos homenzinhos rodeiam a boca do poço e imitam descaradamente meus gestos. As risadas ecoam fortes e ouço o barulho de um pedaço de metal caindo no fundo das sombras. O som reverbera forte e uma luz cega meus olhos. Tudo fica branco.
       Tremo."

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Capítulo 2 - A Gruta

       "Quedas d'água são imprevisíveis e majestosas em um mundo que não costumo compartilhar com o Leitor. As quedas d'água vêm de lugar algum. Caem de um ponto do infinito e desaguam em outro ponto do infinito. Lanço-me no gelo azul.
       O mineral não é insípido. Tem o sabor da lágrima que ofuscou meus sentidos, atordoou nossos olhares. Sinto que está comigo, mas não a vejo, não sei onde fui parar depois de ter acordado. Ouço seu respirar durante minha queda. Tenho a consciência de que posso afogar minha mente no frio úmido.
       Paro repentinamente. Nada vejo. Nada ouço. Nada sinto. Pressinto. O gosto do seu sal ainda permanece nos meus lábios e suas trêmulas mãos tocam meus ombros. Vejo tudo. Tudo em meio a Silhuetas. Todas confusas e sem direção. A fraca iluminação revela as paredes de pedra de uma gruta que não me é estranha. A fraca iluminação guia as sSilhuetas dançantes caverna adentro. Sigo meus instintos. Sigo suas mãos.
       A pressão de se estar cada vez mais fundo cai sobre meus ombros. Cai igual àquele sentimento que não me deixava dormir. Pesa como o remorso dos dias que não vivi, trava meus dentes e me acerta como a consciência que se debruçou sobre mim. Não vem ao caso. Suas mãos não me deixam só. Sigo as Sombras que estão cada vez mais velozes. As luzes começam a me confundir e verdes clarões destoam com vermelhos relâmpagos vindos do fundo da gruta.
       A suave cantiga do Banshee pode ser ouvida além dos meus sentidos, minha boca seca e meu nariz reconhece o odor do enxofre que é expelido pelas paredes das Silhuetas. Acelero o passo. Seu respirar segue em minha nuca. Acelero mais e as luzes começam a cintilar cada vez mais fortes e não sei mais onde estou. Escuro. Nada vejo, nada ouço... Olho para trás e deparo-me com uma galeria mítica. Um vale nas profundezas do meu vazio.
       Procuro sua presença. Perdi suas mãos. Não sei se respira mais. Não quero entrar no vale do Nada. me perder em pesadelos e seguir sozinho dentro de meus próprios medos, meus próprios sonhos. Sigo seus olhos no horizonte.
        Sinto Sede."

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Capítulo 1 - O Sonho

"Era uma manhã nublada de outono. Talvez não. Talvez estivéssemos próximos do meio dia, ou poderíamos até ter passado das três da tarde. Não nos (me) importa, o que importa é que o dia estava nublado e frio.
Lá estávamos nós, no cimo de uma colina, em algum lugar que me é estranho. Talvez não. Não costumo estranhar os lugares que me são impostos pelo sonho, muito pelo contrário, sei exatamente onde estou, mesmo sem nunca ter ido além das paredes do meu quarto.
A Irlanda é fria nessa época do ano. Estávamos juntos e bem agasalhados, já que o vento berrava forte contra nossas faces. Procurávamos algum ponto no horizonte verde que parecesse atraente e exótico. A paisagem é deslumbrante, limpa, monumental. A paisagem cansa. O silêncio fala mais alto que o cenário, tendo em vista que os assuntos nos foram sugados quando nos deparamos com a beleza disposta diante de nossos olhos. As bocas se calaram. Dos olhos brotava água que logo era seca pelos gritos da brisa. As mãos trêmulas e juntas procuravam lugar para repousar e a respiração não era capaz de nos fornecer uma palavra sequer.
Procurávamos algum ponto no horizonte verde. Alguma movimentação, algum sinal que pudesse tirar aquele gelo de uma simetria estática, de um ritmo lento e sutil.
Foi então que nos apareceu uma velha carroça. Ao longe, uma rústica carruagem sem quem a guiasse. Apenas um cavalo magro e branco. Saudável o corsel. Apesar de sua aparência franzina, era de uma força invejável. Carregava sozinho um velho carro de carga com dois grandes barris de cerveja. Vinha lentamente em nossa direção, por uma antiga trilha feita pelos antigos que aqui outrora viveram.
Poucos minutos depois, nos encontrávamos em cima da velha carroça. Não me recordo como lá fomos parar. Apenas me lembro de ouvir sua voz sussurrando como Banshee. Os ouvidos e os olhos cerraram firmes e então alí estávamos, indo a lugar nenhum, sentindo o vento gemer, sentindo o cheiro da maresia que vinha de algum lugar por perto.
Deixávamos as nuvens carregadas para trás e, sorrindo, tentávamos chegar a algum acordo, alguma resposta para os fatos, questionando toda a subjetividade da jornada. Os olhos não se aquietavam e traçavam linhas abstratas que separavam nossas faces gélidas e inocentes.
Uma lágrima sua cai no chão. Olho fundo em seu semblante. Acordo."

Introdução

       "Parei no tempo há séculos. Não sei por quanto tempo fiquei estagnado no vazio. A inspiração me era escassa e a vontade de expressão estava extirpada do peito. As ideias voavam ébrias em torno do escalpo pensante e ocupado demais para o coração. Parei há séculos em um tempo de limbo.
       Desperto agora de um sono morto, crucial para o futuro, essencial para o ser, ponto chave da evolução da mente. Desperto agora em tons de sonhos digressivos que, até  então, nada me significavam, nada me acrescentavam.
       De fato, seria muita ousadia minha revelar esse sono de séculos, ambição demais expor o sentido do vazio e tentar recheá-lo de grandes glórias. Seria covardia tentar encontrar soluções para fatos e questionar a subjetividade.
       Noite passada desceu-me a luz da inspiração, as vozes sussurraram veladas e teus olhos me despertaram em sonho. Não sabia se ainda sonhava ou se já havia despertado. Meus sentidos estavam todos apurados, conseguia sentir o odor da pradaria, podia imaginar o que estaria além das colinas. Sabia que se tocasse em suas mãos sentiria aquela sensação de frio e me arrepiariam as extremidades. Podia sentir o frescor da brisa, ouvir não só as veladas vozes, mas também todo o cenário do qual fazia parte.
       Conversávamos sobre os séculos estagnados no vazio. Procurávamos motivos de não se dar valor ao simples sentido de se estar vivo e poder interagir com os sonhos. Procurávamos motivos de não termos dito adeus, motivos inexistentes. Paradoxos insistentes.
       Lágrimas escondidas e sorrisos que disfarçavam a dor de se estar dormindo, o remorso de não querer acordar, de não querer expor o sentido do vazio, por mais ambiciosa que pareça essa ideia. Seria o medo de rechear de glórias o nada. Medo de saber que o nada é glorioso no deu todo. Medo de não conseguir mais sonhar depois de despertar.
       A partir de agora, Leitor, acompanhará toda a minha jornada pelas terras do Limbo. Revelarei o vazio dos séculos, os motivos do Ser e do Não Ser. Despertarei não só minha inspiração, mas também todas as alucinações que recuperei dos sonhos agora recordados."