segunda-feira, 28 de junho de 2010

Minha condição é humana, logo, Caro Leitor, não tenho condições.
Não tenho condições de escrever nada além do óbvio e do efêmero. O efêmero que choca e causa danos na consciência, não sei por quê. Minha condição é humana e, por tal motivo, ganho esperanças de perder as esperanças. Ganho esperanças de não tê-las para não ferir meus olhos futuramente, para não decepcionar minhas falsas crenças e os dogmas que eu mesmo edifico sem um porquê.
Ganho consciência para perdê-la. Perder a consciência dói menos do que saber que esta o leva à insanidade. Paradoxalmente humano.
Ora, somos montados de paradoxos, não de amontoados de antíteses... jogadas em uma porção de sujeira ambulante. Não somos indivíduos, somos um todo. Não somos um todo, somos indivíduos. Paradoxalmente HUMANOS.
Sou nada a mais,
nada a menos.
Quanto mais sou
menos me torno
Quanto menos sou
mais quero ser.
Seu olhar não é seu
foi feito por alguém
Lá fora, aí dentro.

As palavras vêm e vão,
mas marcas vêm e ficam.

Sou nada a mais,
nada a menos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

E o orvalho pesou. Sua delicada transparência dispersou-se em lâminas desorganizadas no solo. A última gota caiu. Secou o ar, umedeceu a areia seca. Caiu dos olhos, salgou a fonte...
Caro leitor, as cinzas e a poeira apenas ratificam a sensibilidade da matéria nossa própria FALTA.
Falta de sensibilidade, falta da capacidade de discernimento e falta de qualquer VONTADE.

E o orvalho pesou...
A última gota escoou.
Desceu pelo pálido semblante
Molhou o solo seco.

E o orvalho pesou...
Explodiu na fronte
Daquele que olhava o firmamento,
Regou a mente de vazio.

E o orvalho pesou...
Secou...
Cinzas se tornou.
O orvalho transbordou.

domingo, 20 de junho de 2010

Vozes


Ah...
As bocas se calaram,
Mas as vozes...
As vozes ainda são ouvidas.

O peito gelou.
A pele nevou.
E o semblante agravou-se.
Ah...
E as vozes...
As vozes não cessam.
Simplesmente, algozes,
Te dispersam.

...Vozes.
Te dispersam.

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Confiança é um nó cego. Confiança é um laço sensível que pode desatar-se num piscar de olhos. Todos aqueles olhos que afagam-lhe o ego podem apunhalar seu peito, fuzilar a alma e deteriorar a essência.
É um nó cego que enxerga os espaços vazios e ata um desconcerto tão particular e vicioso quanto sua volubilidade à curiosidade do alheio.
Caro leitor, sei que não deveria, mas o farei. Sei que, muitas vezes não é de bom tom ou muito conveniente, mas um desabafo às vezes pode tornar-se a arte do RESPIRAR.
Certamente nada tem a ver com minha vida, só que, por hora gostaria de dizer-lhe o quão bom é ser ingênuo! Não pense que sou... grande desventura minha. O peito dos seres inocentes é de fácil manipulação e tem movimentos harmônicos, dançantes, invejáveis. Invejáveis para aqueles que puxam os nós cegos e "rapinam" a sabedoria (ou ao menos tentam).
Apenas um desabafo. Odeio ter que dizer que tenho desatado nós cegos. Um piscar de olhos e me vejo descalço na brasa. Caminhando até o outro lado pra tentar atar algum laço que me restou.
Grato,
Leo Rodrigues

terça-feira, 15 de junho de 2010


E Tudo se acabou...
Tudo virou cinzas
E Tudo virou Nada.

Nada tornou-se novo,
Nada tornou-se bom,
Nada agora é Tudo
E Tudo agora é Nada.

Sal é mar, água seca...
Que dá sede de mais
Dá ânsia de se ter Tudo,
Ou de se ter Nada.

E Tudo (re)começou...
Começou a terminar,
Só pra não se dizer
Que Tudo é Nada.
E então voltar
A virar pó

Tornar-se matéria

Virar pó

Tor nar - se
Ma Té Ria

Vi r a
r p ó

. . .

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Fábrica de dias.


Em algum lugar, muito distante de nossa pobre trivialidade, há uma fábrica de dias.
Dias longínquos, tempos remotos. Dias negros. Dias de sonho. Dias de lágrima. Areias que escoarão como qualquer outra, tornando-se parte das dunas de um oásis perdido em meio a um deserto de dias secos e tão banais quanto um "bom dia" pela manhã.
Dias são dias. São fabricados todos com o mesmo ouro de sempre. Banhados a sangue. Afogados no passado. Respirando futuro.
Há uma fábrica de dias lá fora. Um lugar onde o tempo é estático. Um lugar onde os exilados do Dom Divino mantêm-se sempre satisfeitos. Todos movidos pelo narcisismo caótico que brama alto dias afora.
Em um lugar, muitíssimo distante, dentro de mim, há uma fábrica de dias. Dias que temo. Dias que amo. Há uma fábrica de beijos, soluços, anseios, vitórias e derrotas.
Aguardo sabiamente o dia que está por vir. A obra prima da Criação. Espero por aquele dia que possa parecer como qualquer outro, mas que me leve de volta à fábrica de onde vim.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Receita


Pois bem. Se me pedissem para escrever algo neste exato momento, diria que não. Negaria impiedosamente até que o cansaço saísse vitorioso e que pudesse haver comigo mesmo. Em paz. Mas, em verdade, não é muito bem isso que ocorre nesse tonel farto de ideias frescas que está sobre meu pescoço. NECESSITO esvaziá-lo. Abrir as torneiras só pra ver o que sai. Ver se a vinha era da boa, se o aroma corresponde ao fruto, se há sabor no que se consome.
Devo confessar-lhe, leitor, que por mais esdrúxulas que sejam minhas palavras, por mais cruas, secas e rubras, são minhas palavras. Particularmente minhas. Degusto-as letra por letra, frase por frase, de ponto a ponto.
Devo falar-lhe, leitor, que não me apetecem pratos refinados e ornamentados, com nomes estrangeiros e sabores extra-continentais. Não me agradam os gostos que agradam um apreciador de requintes e mordomias exclusivas. Apenas me satisfazem os odores de uma sustância rica, nutritiva e, paradoxalmente, detestada por aqueles que digerem o banal. O que não deveria ser exótico, mas o é.
Digo então que vou-me deitar depois de apreciar um bom prato de sopa de letras. Tão confusas e misturadas que mal posso ver o líquido fluir entre elas. Vou-me tarde, por em ordem as ideias que foram engolidas.

domingo, 6 de junho de 2010

Saia!


Ei, olhe bem nos meus olhos...
E diga que a vida não é o bastante.
Diga que o mundo tem sete bilhões de vidas...
Não há sete bilhões, mas beiramos este precipício.

Saia... diga que você está no meio delas
E nem mesmo sabe o porquê...
Eles não o conhecem,
Você não os conhece...

Diga, então, que tem um sonho...
Só pra descobrir que sonhos não são feitos,
São conquistados e lapidados
Sem que tenhamos a chance de ao menos nos enfrentarmos.

Saia... diga que está no meio dessas vidas.
Não tente conhecê-las.
Não tente conquistá-las, cativá-las...
Antes de conhecer a si mesmo,
Saber qual sua identidade.

Ei, olhe bem nos meus olhos...
E diga que a vida não é o bastante.
Diga que não faz parte da beira desse precipício...
...Diga que isso é o bastante...
Não sei o que isso é. Mas é

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sei, não.


Há tempos não sei o que é sonhar. Não sei mais o que são pesadelos, quais os verdadeiros significados de palavras simples. Vocábulos extremamente complexos e bem elaborados em um período tão confuso como o labirinto cinzento dentro de meu universo mental ocupam demais as lacunas e derrubam meu senso crítico e emocional.
Cansei de começar minhas frases com negações, mas, afinal, nega-se a própria vontade de negar e afirma-se o vício da dor de não ser o que se deve ser: um rinoceronte em corda-bamba, esperando o momento exato. O momento que será apontado louco, suicida.
Há tempos não sei o que significa escrever uma carta de amor, um bilhete de amigo, uma ventura da vida. Há tempos não sei o que é apoiar-se em um ombro. Sou muleta de criaturas pobres. Por isso mesmo, continuo iniciando meus períodos em negações... talvez elas afirmem o que parece fugir dos olhos fadados a serem cegos. Talvez minhas negações afirmem. Talvez não. Não sei.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O novelo


Era um simples novelo de lã, mas mesmo assim fixava seus úmidos olhos naquele emaranhado de fios que não faziam sentido algum, que roubavam seu senso crítico.
A luz do fogo da lareira brincava com as sombras e aquecia seu semblante deformado. Tudo estava concentrado bem ali, naquela bolinha trançada. Imaginava que poderia ser como ela: estático, homogêneo, emaranhado, confuso, inanimado... formado da carcaça de outro animal que como qualquer outro, apenas passou sobre a Terra.
Olhava o estalar das chamas e as labaredas subindo e bailando de modo tão abstrato... tão atraente. Voltava então, sua atenção para o novelo de lã em suas mãos, tão sem graça, pobre e confuso... tão humano. Observava uma vida em suas mãos. Uma vida em chamas. Devaneava com suas sombras... lançava os pedacinhos daquela pequena e insana vida às chamas... Devaneava... as ideias refletiam...
Gritos! e o novelo de lã cai pelas escadas abaixo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Velas


E lá fora posta uma vela acesa a sua frente. Os gigantes, como em um ritual periódico, urravam e cantavam palavras que não lhe faziam sentido algum. Não pedira para ser colocado nesse mundo, só pra depois ser culpado de sua existência, pra ser culpado de apagar velas, queimar a parafina que consome a vida.
As luzes se apagam e a vela queima. Refletem em sua íris o calor e o peso que carregará em seus ombros. Sem velas a mais, são simplesmente velas a menos.
E lá fora posta uma vela acesa a sua frente. A chama sendo apagada. Apaga-se o tempo. Uma vela a sua frente... a primeira de suas vinte e uma velas que esmaeceram as luzes da sala.