segunda-feira, 7 de junho de 2010

Receita


Pois bem. Se me pedissem para escrever algo neste exato momento, diria que não. Negaria impiedosamente até que o cansaço saísse vitorioso e que pudesse haver comigo mesmo. Em paz. Mas, em verdade, não é muito bem isso que ocorre nesse tonel farto de ideias frescas que está sobre meu pescoço. NECESSITO esvaziá-lo. Abrir as torneiras só pra ver o que sai. Ver se a vinha era da boa, se o aroma corresponde ao fruto, se há sabor no que se consome.
Devo confessar-lhe, leitor, que por mais esdrúxulas que sejam minhas palavras, por mais cruas, secas e rubras, são minhas palavras. Particularmente minhas. Degusto-as letra por letra, frase por frase, de ponto a ponto.
Devo falar-lhe, leitor, que não me apetecem pratos refinados e ornamentados, com nomes estrangeiros e sabores extra-continentais. Não me agradam os gostos que agradam um apreciador de requintes e mordomias exclusivas. Apenas me satisfazem os odores de uma sustância rica, nutritiva e, paradoxalmente, detestada por aqueles que digerem o banal. O que não deveria ser exótico, mas o é.
Digo então que vou-me deitar depois de apreciar um bom prato de sopa de letras. Tão confusas e misturadas que mal posso ver o líquido fluir entre elas. Vou-me tarde, por em ordem as ideias que foram engolidas.

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