quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Árvore

       Os galhos daquela árvore, tão frondosa árvore, tão robusta Sequóia que firmava-se no meio da pradaria, esmigalharam-se e caíram feito cacos de um vitral no chão seco e frio. Aquele tronco imponente que ratificava a glória de séculos e séculos estruturados na lei da madeira nobre partiu-se em delicadas farpas de fibra morta, enchendo o solo de passado, alimentando as gerações que viriam após seu repentino desaparecimento.
       As gotas da garoa umedecem o adubo gerado pela morta matéria viva. Aquele ser que esbanjava vida, que pulsava numa harmonia aumentada, interrompida por diminutas cadências que modulavam suas fascinantes fases, agora alimenta os embriões de novos prólogos que brotarão a partir de sua morte.
       Toda a beleza, toda a vida, toda a carcaça embebida num manto divino apodreceu. Está carcomida e os insetos fizeram de seu óbito uma colônia tão viva quanto a Sequóia que ali respirava. Aqueles animais que debaixo de sua sombra buscavam abrigo, que por entre seus galhos encontravam, por mais simplórios que fossem, lares, agora se dispersam no vazio da pradaria nua. Exposta à brancura do leito do luar. Exposta ao queimar do Astro Rei. Pradaria à deriva da garoa que sossega os espíritos inquietos, despertados pela indagação. Afoitos. Aflitos. Aguardando mais um ciclo vicioso no qual vida torna-se adubo de outra vida.
       Era uma vez, uma história como outra qualquer. Uma estrada que bifurca-se pelas suas escolhas, suas renúncias. Personagens fogosos de uma história surreal, banal. Era uma vez recordações, experiências, olhares, jornadas. A jornada acabou.
       Era uma vez, uma história como outra qualquer. Um epílogo desnorteado e inesperado. Toda história tem um fim. Toda história termina e dá início a novas crônicas, novas estradas.
       21 de setembro de 2010, início de mais um prólogo, conclusão de um capítulo atordoado e gasto pelo cansaço.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Algum Dia

          E se algum dia teus olhos se abrissem e começassem a reviver tudo aquilo que já passou?... Como num filme... Como em um livro, em que as palavras voam e tomam formas. Se dispersam, viram sons, transmutam-se em cores, vibrantes cores que machucam as córneas retraídas. Escalas de cinza, num preto e branco que escondem a imperfeição da sépia rodando todas aquelas memórias, aquelas lembranças, aquelas infindáveis recordações que giram num turbilhão. Indo por água abaixo.
          E se algum dia pudesses ouvir as vozes que te faziam ninar... Sentir as frequências daquelas palavras outrora proferidas e que agora estão aprisionadas em algum espaço dentro de algum tempo remoto e esdrúxulo. Indiferente e sem importância, sem relevância. Tão irrelevante que seus fantasmas assombram teus sonhos... Desdobram-se em sorrisos... Caem em lágrimas, suspiram saudosos, ardem nostálgicos, doem de um modo a parecer confortável para tua carne gasta e suja.
          E se ganhasses um dia... Um dia pra poder sentir. Sentir todas aquelas sensações que aguçaram teu tato, desnortearam teu olfato em meio a uma sinfonia de sentidos perplexos e inexoravelmente confusos...Aquelas sensações que mudaram teu paladar, adocicando teus anseios, azedando teus sorrisos...
          E se algum dia pudesses agradecer, perdoar a ti mesmo, pedir mais um dia? Mais um dia pra que vejas o que teus olhos não puderam enxergar... Pra que sintas o que teus sentidos não puderam distinguir... Pra que possas ouvir aquelas palavras que não te foram ditas, ou até mesmo pra que digas aquilo que deverias ter dito. E se algum dia a ampulheta parasse e as areias não mais escoassem? Seria teu fim. Não haveria motivos mais. Histórias a mais. Se pudesses dominar todo o tempo...o perderia e este não te mataria. Cometerias suicídio.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010


Sinto saudade daqueles dias nos quais podia olhar pro céu e suspirar à deriva de uma brisa incerta que abre os portões de um vazio no peito.
Sinto saudade de saber quem eu sou.
Saudade de saber que não sei aonde vou.
Me vem um aperto em ter a vaga noção de que minhas cinzas vão se dispersando num infinito desordenado e profundo. Vem o aperto de querer não sentir saudade. De querer perder os sentidos e sentimentos, só pra não misturar as saudosas lembranças com nostálgicas memórias. Pra não chorar mais. Pra não rir mais. Pra não fantasiar mais.
As verdades caem em tentação e os olhos disfarçam os calafrios que sente depois de roubarem sua identidade.
Sinto saudade de saber quem sou. Saudade de te procurar. Saudade de te amar.