domingo, 12 de junho de 2011

Capítulo 6 - A Carta

"Duvido que teus olhos sejam sinceros comigo. Perco-me nessas pérolas que foram criadas para torturar e levar meu coração pra longe de mim. Tenho certeza de que não encontrei nenhum amor, nenhum motivo que faça valer a pena a dor e o suor. Certeza de que nenhuma das pérolas que já me encantou foi suficientemente valiosa a ponto de eu me deixar dominar, de eu amordaçar meu peito e rasgar meu passado. Cansei também da primeira pessoa neste discurso!
 Tira-se, então, o sujeito e universaliza-se a ideia. Imortaliza-se a inspiração e toda a vontade de se abrir para o mundo, a vontade de gritar pra ninguém ouvir. Só teus pensamentos e teus amores. Duvido que os olhos sejam sinceros. Eles próprios se enganam e confundem a imagem, distorcem a realidade, romantizam a esdrúxula vontade do carnal e embelezam as lágimas, tentando transformá-las em amparo e motivos de limpeza de suas pupilas.
 Sonha-se tanto e lembra-se pouco. Fica tudo adormecido, à espera de uma punhalada certeira. Sonha-se com tanto, mas vive-se quase nada. As ideias caem e esmaecem. A covardia não as deixa florescer, mata todas elas e dá como troco a nostalgia de não se ter mergulhado nas profundezas da subjetividade.
 Volto à primeira pessoa e trato meus amores com a indiferença merecida. São apenas sombras que iludem meus olhares, enganam meus pensamentos e persuadem meu ser. Não estendo-me mais do que isso. Prefiro este momento de criação e angústia, a um momento efêmero e falso que abre uma cicatriz bem no fundo de mim. Espero poder encontrá-la em breve e ter de volta aquela voz sincera que me faz ninar."

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