sexta-feira, 17 de junho de 2011

Capítulo 7 - O Desejo

"Faça um pedido. Deseje um momento de solidão. Espere o Silêncio conquistar sua alma e dominar as ideias que pra nada servem.
 Peça para não voltar mais ao lar de mãos vazias e deseje enchê-las de labuta. Labuta mental. Encha suas mãos de pó, de você mesmo e... faça um pedido, pois as moedas da fonte não reluzem mais, não brilham como o cintilar do sonho estagnado nas águas cíclicas e viciosas desse poço de desejos.
  Sentada à beira da fonte, uma doce menininha conta as moedas, refresca suas mãos na superfície gelada e transparente que reflete sua face e distorce seu semblante. Imagina quantos sonhos ali depositados foram deixados para as carpas, quantos desejos oxidaram-se naquelas águas viciosas e tentadoras. Percebe a riqueza deixada pra trás, o tesouro lançado no fundo de um poço imaginário, a preciosidade que nem o baú dos Corsários pode comprar, nem o saque dos piratas pode suportar. Mapeia todas as lágrimas que salgaram o manto límpido, todos os sorrisos refletidos, as esperanças perdidas, os remorsos lançados com a prata.
 Tenta entender o porquê de aquela fonte devolver sonhos em troca do níquel conquistado pela ânsia do material, riqueza ajuntada pelos que não ousam sonhar, por aqueles que já se acomodaram e, simplesmente, lançam sua falta de virtudes com um pedaço daquilo que representa o vazio e efêmero. A vida em troca de uma pequena parcela de misticismo e um bocado do seu bolso.
 À beira da fonte, não ousa tocar em nenhum dos sonhos ali jogados, apenas espera seu momento de insanidade para, então, poder lançar também seus desejos naquela prisão de esperanças.
 Faça um pedido. Aperte suas mãos contra o peito enquanto segura um amuleto que lhe doa perder. Lance-o para as carpas e veja-o afundar com a certeza de que nada o trará de volta. Troque-o pelo Desejo."
 

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