quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Capítulo 16 - A Menina


                "Era uma menina diferente de todas as outras que já havia visto. Nada se comparava com aqueles olhos sinceros, com aquele sorriso acolhedor, com aquela personalidade brilhante.
                Acontece que a conheci em um dia qualquer, sem grandes méritos, sem grandes planos, sem quaisquer olhares mais profundos e cativantes. Não esperava nada, simplesmente aconteceu. Depois de certo tempo algo muito estranho caiu sobre meus ombros e começou a revirar meu peito e abrir meu coração. Tenho certeza de que meu semblante poderia ser comparado ao de uma criancinha quando recebe seu presente de Natal. Ria à toa e falava mais do que o meu normal.
                Percebi que havia mudado e que meus sorrisos não eram mais forçados e melancólicos. Talvez, pela primeira vez em minha vida (depois de minha rica infância), eu sorria sem o fundo de melancolia suspirando atrás de mim. Pode ser que tenha exagerado nas palavras, mas o poeta sempre considera que seus sentimentos sejam descartáveis e joga todos eles no lixo, tornando-se uma vítima de si mesmo, sufocando seus próprios princípios e tirando a liberdade daquele que mais ama e quer bem. O poeta tenta transformar em arte cada momento e, em alguns desses momentos, a arte é desnecessária, pois ela apenas fantasia as expectativas fantásticas de uma mente solitária.
                Era um sentimento fora do comum. É um sentimento fora do comum, na verdade. Ao mesmo tempo que me dá vida, inspiração e alegra as horas da minha existência, ele me consome, traz a melancolia e molha os travesseiros das noites pensativas.
Realmente, é uma menina diferente de todas as outras: conseguiu desmitificar o artista, conseguiu transformá-lo em um ser menos egocêntrico, menos introvertido. Conseguiu aumentar a maré de pensamentos e preocupações que assolam a mente viajante, conseguiu dominar os sonhos daquele que sempre se considerou muito livre e, falsamente, feliz.
Suas conversas desviavam toda minha atenção, sua meiguice hipnotizava meu ser, congelava meus olhos, distraía-me todo. Meu tempo não era útil sem suas palavras, minha vida não fazia sentido se não tivesse presente. Comecei a perder as horas, perder cada segundo aprisionando almas, forçando as areias correntes de uma ampulheta eterna, que não precisa acelerar nenhum grão de seu escoamento, apenas flui.
Se me perguntarem o que sinto agora, responderei com orgulho que nada mudou. A chama não apagou, foi apenas colocada em seu devido lugar, não mais junta à ampulheta, não mais queimando os ponteiros. Se me perguntarem o que sinto agora, responderei que sinto a melancolia de se amar, a felicidade de se desejar, o desejo de não se querer, apenas a vontade e a certeza de se deixar fluir. Sentir o friozinho da incerteza, apostando na confiança do que vem lá do fundo do peito.
Ela me ensinou a viver... me ensinou a ter vontade de viver, a vontade de querer morrer, a ânsia de querer matar, o sentido do orar, o significado do perdoar. Ensinou-me o que é sorrir e o que é chorar.., aprendi a não me importar, aprendi a cativar; a não querer... aprendi a deixar viver e a conquistar. Aprendi que contra o tempo, não posso, ele põe tudo em seu lugar."

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