"Era uma menina diferente de todas as outras que já havia
visto. Nada se comparava com aqueles olhos sinceros, com aquele sorriso
acolhedor, com aquela personalidade brilhante.
Acontece
que a conheci em um dia qualquer, sem grandes méritos, sem grandes planos, sem
quaisquer olhares mais profundos e cativantes. Não esperava nada, simplesmente
aconteceu. Depois de certo tempo algo muito estranho caiu sobre meus ombros e
começou a revirar meu peito e abrir meu coração. Tenho certeza de que meu
semblante poderia ser comparado ao de uma criancinha quando recebe seu presente
de Natal. Ria à toa e falava mais do que o meu normal.
Percebi
que havia mudado e que meus sorrisos não eram mais forçados e melancólicos. Talvez,
pela primeira vez em minha vida (depois de minha rica infância), eu sorria sem
o fundo de melancolia suspirando atrás de mim. Pode ser que tenha exagerado nas
palavras, mas o poeta sempre considera que seus sentimentos sejam descartáveis
e joga todos eles no lixo, tornando-se uma vítima de si mesmo, sufocando seus
próprios princípios e tirando a liberdade daquele que mais ama e quer bem. O
poeta tenta transformar em arte cada momento e, em alguns desses momentos, a
arte é desnecessária, pois ela apenas fantasia as expectativas fantásticas de
uma mente solitária.
Era
um sentimento fora do comum. É um sentimento fora do comum, na verdade. Ao mesmo
tempo que me dá vida, inspiração e alegra as horas da minha existência, ele me
consome, traz a melancolia e molha os travesseiros das noites pensativas.
Realmente, é uma menina
diferente de todas as outras: conseguiu desmitificar o artista, conseguiu
transformá-lo em um ser menos egocêntrico, menos introvertido. Conseguiu aumentar
a maré de pensamentos e preocupações que assolam a mente viajante, conseguiu
dominar os sonhos daquele que sempre se considerou muito livre e, falsamente,
feliz.
Suas conversas desviavam toda
minha atenção, sua meiguice hipnotizava meu ser, congelava meus olhos,
distraía-me todo. Meu tempo não era útil sem suas palavras, minha vida não
fazia sentido se não tivesse presente. Comecei a perder as horas, perder cada
segundo aprisionando almas, forçando as areias correntes de uma ampulheta
eterna, que não precisa acelerar nenhum grão de seu escoamento, apenas flui.
Se me perguntarem o que sinto
agora, responderei com orgulho que nada mudou. A chama não apagou, foi apenas
colocada em seu devido lugar, não mais junta à ampulheta, não mais queimando os
ponteiros. Se me perguntarem o que sinto agora, responderei que sinto a
melancolia de se amar, a felicidade de se desejar, o desejo de não se querer,
apenas a vontade e a certeza de se deixar fluir. Sentir o friozinho da
incerteza, apostando na confiança do que vem lá do fundo do peito.
Ela me ensinou a viver... me ensinou
a ter vontade de viver, a vontade de querer morrer, a ânsia de querer matar, o
sentido do orar, o significado do perdoar. Ensinou-me o que é sorrir e o que é
chorar.., aprendi a não me importar, aprendi a cativar; a não querer... aprendi
a deixar viver e a conquistar. Aprendi que contra o tempo, não posso, ele põe
tudo em seu lugar."

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