terça-feira, 21 de setembro de 2010

Algum Dia

          E se algum dia teus olhos se abrissem e começassem a reviver tudo aquilo que já passou?... Como num filme... Como em um livro, em que as palavras voam e tomam formas. Se dispersam, viram sons, transmutam-se em cores, vibrantes cores que machucam as córneas retraídas. Escalas de cinza, num preto e branco que escondem a imperfeição da sépia rodando todas aquelas memórias, aquelas lembranças, aquelas infindáveis recordações que giram num turbilhão. Indo por água abaixo.
          E se algum dia pudesses ouvir as vozes que te faziam ninar... Sentir as frequências daquelas palavras outrora proferidas e que agora estão aprisionadas em algum espaço dentro de algum tempo remoto e esdrúxulo. Indiferente e sem importância, sem relevância. Tão irrelevante que seus fantasmas assombram teus sonhos... Desdobram-se em sorrisos... Caem em lágrimas, suspiram saudosos, ardem nostálgicos, doem de um modo a parecer confortável para tua carne gasta e suja.
          E se ganhasses um dia... Um dia pra poder sentir. Sentir todas aquelas sensações que aguçaram teu tato, desnortearam teu olfato em meio a uma sinfonia de sentidos perplexos e inexoravelmente confusos...Aquelas sensações que mudaram teu paladar, adocicando teus anseios, azedando teus sorrisos...
          E se algum dia pudesses agradecer, perdoar a ti mesmo, pedir mais um dia? Mais um dia pra que vejas o que teus olhos não puderam enxergar... Pra que sintas o que teus sentidos não puderam distinguir... Pra que possas ouvir aquelas palavras que não te foram ditas, ou até mesmo pra que digas aquilo que deverias ter dito. E se algum dia a ampulheta parasse e as areias não mais escoassem? Seria teu fim. Não haveria motivos mais. Histórias a mais. Se pudesses dominar todo o tempo...o perderia e este não te mataria. Cometerias suicídio.

Um comentário:

  1. Ah Leo... Como sempre escrevendo muito bem! Foi bom te ver, mesmo que por pouco tempo. Espero que suas inquietações continuem as mesmas, pois é da peturbação da alma que retiram-se, mesmo que doloridas, as mais belas palavras. beijos da gi (:

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