domingo, 27 de fevereiro de 2011

Capítulo 2 - A Gruta

       "Quedas d'água são imprevisíveis e majestosas em um mundo que não costumo compartilhar com o Leitor. As quedas d'água vêm de lugar algum. Caem de um ponto do infinito e desaguam em outro ponto do infinito. Lanço-me no gelo azul.
       O mineral não é insípido. Tem o sabor da lágrima que ofuscou meus sentidos, atordoou nossos olhares. Sinto que está comigo, mas não a vejo, não sei onde fui parar depois de ter acordado. Ouço seu respirar durante minha queda. Tenho a consciência de que posso afogar minha mente no frio úmido.
       Paro repentinamente. Nada vejo. Nada ouço. Nada sinto. Pressinto. O gosto do seu sal ainda permanece nos meus lábios e suas trêmulas mãos tocam meus ombros. Vejo tudo. Tudo em meio a Silhuetas. Todas confusas e sem direção. A fraca iluminação revela as paredes de pedra de uma gruta que não me é estranha. A fraca iluminação guia as sSilhuetas dançantes caverna adentro. Sigo meus instintos. Sigo suas mãos.
       A pressão de se estar cada vez mais fundo cai sobre meus ombros. Cai igual àquele sentimento que não me deixava dormir. Pesa como o remorso dos dias que não vivi, trava meus dentes e me acerta como a consciência que se debruçou sobre mim. Não vem ao caso. Suas mãos não me deixam só. Sigo as Sombras que estão cada vez mais velozes. As luzes começam a me confundir e verdes clarões destoam com vermelhos relâmpagos vindos do fundo da gruta.
       A suave cantiga do Banshee pode ser ouvida além dos meus sentidos, minha boca seca e meu nariz reconhece o odor do enxofre que é expelido pelas paredes das Silhuetas. Acelero o passo. Seu respirar segue em minha nuca. Acelero mais e as luzes começam a cintilar cada vez mais fortes e não sei mais onde estou. Escuro. Nada vejo, nada ouço... Olho para trás e deparo-me com uma galeria mítica. Um vale nas profundezas do meu vazio.
       Procuro sua presença. Perdi suas mãos. Não sei se respira mais. Não quero entrar no vale do Nada. me perder em pesadelos e seguir sozinho dentro de meus próprios medos, meus próprios sonhos. Sigo seus olhos no horizonte.
        Sinto Sede."

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